No século II, Marcião de Sinope, um teólogo cristão natural do Ponto (atual Turquia), ensinava que o Deus do Antigo Testamento seria um deus inferior e severo, diferente do Pai revelado por Jesus Cristo no Novo Testamento.
É importante ressaltar que a Igreja Primitiva rejeitou veementemente essa visão dualista de Deus.
Marcião morreu por volta de 160 d.C., mas, ainda hoje, em pleno século XXI, existem religiosos que defendem essa mesma heresia.
Essas pessoas costumam usar argumentos que apelam para o emocional. Dizem que o Deus do Antigo Testamento seria cruel, responsável pela morte de crianças e recém-nascidos, enquanto o Deus revelado por Jesus no Novo Testamento seria apenas amoroso e misericordioso.
Frequentemente citam passagens relacionadas às guerras contra povos como os Cananeus e os Amalequitas, mencionando ordens de destruição dadas por Deus:
“Agora vão, ataquem os amalequitas e consagrem ao Senhor para destruição tudo o que lhes pertence. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos.”
(Primeiro Livro de Samuel 15:3)
Mas onde estão os erros nessa visão?
1 — Deus é um só
O próprio Deus afirma não existir outro além dEle:
“Eu sou o Senhor, e não há outro.”
(Livro de Isaías 45:5)
A visão dualista de Marcião implica a existência de dois deuses: um inferior e cruel, e outro bom e superior. Isso é, na prática, politeísmo, algo que contradiz diretamente o ensino bíblico.
O próprio Jesus declarou:
“Eu e o Pai somos um.”
(Evangelho de João 10:30)
Aqui Jesus afirma uma unidade absoluta de essência, natureza e autoridade com Deus Pai. Não existem dois deuses, mas um único Deus que se revela como Pai, Filho e Espírito Santo. Assim, quem sustenta a visão dualista precisa decidir se acredita no ensino da Bíblia ou na doutrina de Marcião.
2 — O próprio Jesus confirma o Antigo Testamento
Jesus e os apóstolos citavam constantemente as Escrituras do Antigo Testamento como autoridade divina. O próprio Senhor declarou:
“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir.”
(Evangelho de Mateus 5:17)
Aqui Jesus afirma que sua missão não era abolir o Antigo Testamento, mas cumprir tudo o que nele foi anunciado.
Jesus também confirmou eventos de julgamento divino, por exemplo, o Dilúvio de Noé:
“Assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem…
veio o dilúvio e os levou a todos.”
(Evangelho de Mateus 24:37–39)
Jesus trata o dilúvio como um evento real de julgamento divino, descrito no Livro de Gênesis. Ele não diz que foi obra de um “deus mau”, mas apresenta o acontecimento como ação do verdadeiro Deus, mesmo que no dilúvio também tenham morrido crianças.
O mesmo ocorre com a destruição de Sodoma e Gomorra:
“No dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos.”
(Evangelho de Lucas 17:28–30)
Novamente, Jesus apresenta o episódio como juízo divino legítimo. Mesmo que matar pessoas queimadas seja algo cruel na visão das pessoas. Novamente aqui Jesus atribui a destruição ao mesmo Deus que Ele chama de Pai. E isso na visão de Jesus não foi crueldade, foi juízo.
3 — Deus não muda
A Bíblia afirma claramente que Deus é imutável:
“Em Deus não há mudança nem sombra de variação.”
(Epístola de Tiago 1:17)
O próprio Novo Testamento mostra que Deus continua sendo juiz:
“Nosso Deus é fogo consumidor.”
(Epístola aos Hebreus 12:29)
Além disso, o Novo Testamento fala claramente sobre o Juízo Final (Livro do Apocalipse 20:15).
O próprio Jesus falou repetidamente sobre condenação e julgamento.
Se o Deus do Antigo Testamento fosse mau, então Jesus, que o citava constantemente, estaria validando um deus mau. Isso criaria uma contradição dentro do próprio Novo Testamento. Os defensores da doutrina de Marcião não percebem isso.
4 — O Antigo Testamento também revela o amor de Deus
Apesar de apresentar Deus como juiz justo, o Antigo Testamento também enfatiza sua misericórdia:
“Senhor, Senhor Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e grande em amor.”
(Livro do Êxodo 34:6)
Deus também demonstrava paciência antes de exercer julgamento:
“A iniquidade dos amorreus ainda não chegou ao seu limite.”
(Livro de Gênesis 15:16)
Isso indica que Deus esperava séculos antes de punir certos povos, dando oportunidade de arrependimento. Quando houve arrependimento, Ele suspendeu o castigo — como aconteceu com a cidade de Nínive após a pregação do profeta Jonas.
5 — Os povos julgados não eram inocentes
A Bíblia descreve práticas extremamente cruéis entre povos de Canaã, como:
sacrifício de crianças
prostituição cultual
violência ritual
Os Amalequitas, por exemplo, atacaram os israelitas de forma covarde durante a travessia do deserto:
“Feriu na retaguarda todos os fracos, quando estavas cansado e exausto.”
(Livro de Deuteronômio 25:17–18)
Eles atacaram pelas costas, mirando justamente os mais vulneráveis: idosos, crianças e doentes. Então Deus não puniu "coitadinhos", mas povos extremamente crueis.
6 — Deus também julgou Israel
Deus não fez acepção de povos. Quando os Israelitas cometeram os mesmos pecados, também foram castigados. Um exemplo foi a destruição de Jerusalém e o exílio na Babilônia. O julgamento divino não era racial, mas moral.
7 — A questão das crianças
Alguns perguntam por que as crianças não foram poupadas. A resposta é simples: se fossem poupadas, certamente iriam crescer e querer se vingar dos israelitas, retornando o ciclo de violência entre aqueles povos. Então Deus resolveu exterminar por completo aquele povo, o que incluía as crianças. Mas isso não foi crueldade? Alguém poderia perguntar. A resposta é NÃO! Quando entendemos a natureza da morte, de acordo com a própria bíblia, percebemos que a morte física não é o fim da existência:
“Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma.”
(Evangelho de Mateus 10:28)
Entenda que aquelas crianças não foram riscadas da existência, mas apenas tiradas do nosso plano terreno. Deus tirou elas de um lugar e colocou em outro. Como apenas o corpo morre e a alma sobrevive, aquelas crianças foram privadas da vida na Terra mas continuam existindo em outro plano. E certamente Deus fará justiça a elas, pois elas não tinham culpa do que seus pais perversos fizeram.
Ele realmente é: um Deus amoroso e misericordioso, que dá tempo para o arrependimento, mas também santo e justo, que pune o mal quando necessário.
A Bíblia apresenta essas duas realidades:
Deus é amor — mas também é fogo consumidor.