Você já deve ter se perguntado por que a Bíblia católica tem sete livros a mais do que a Bíblia usada pelos protestantes. Afinal, quem está certo? Será que a Bíblia católica tem livros a mais, ou é a Bíblia protestante que tem livros a menos?
O que acontece é que a Bíblia protestante segue o cânon hebraico — isto é, a lista de livros que os judeus consideram inspirados por Deus. De fato, os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sirácida), Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus não fazem parte desse cânon.
Esses livros são considerados, tanto pelos judeus quanto pelos protestantes, como apócrifos. Livros apócrifos são escritos antigos, geralmente de conteúdo religioso, que não foram incluídos no cânon oficial da Bíblia. A palavra “apócrifo” vem do grego apókryphos, que significa “oculto” ou “escondido”.
Alguns dos motivos tradicionalmente apontados para a exclusão desses livros incluem:
autoria incerta ou discutida
divergências doutrinárias
falta de aceitação ampla entre comunidades antigas
composição considerada tardia
Mas, se esses livros não fazem parte do cânon hebraico, por que foram incluídos na Bíblia católica?
Uma das principais razões está na Septuaginta. Entre os séculos III e I a.C., textos das Escrituras hebraicas foram traduzidos para o grego em Alexandria, onde viviam muitos judeus que já não falavam hebraico. O nome “Septuaginta” vem do latim e significa “setenta”, em referência à tradição de que cerca de 70 (ou 72) sábios participaram da tradução.
No entanto, essa tradução não se limitou apenas aos livros do cânon hebraico. Ela também passou a incluir outros textos religiosos que circulavam entre os judeus da diáspora, entre eles os sete livros que mais tarde seriam reconhecidos pela Igreja Católica.
Assim, a Septuaginta não era uma tradução fechada, mas uma coleção mais ampla de escritos em grego — quase como uma biblioteca de textos religiosos.
Como esses livros estavam presentes na Septuaginta, passaram a ser aceitos pela tradição católica. Posteriormente, a Igreja Católica os reconheceu oficialmente como deuterocanônicos (segundo cânon), isto é, livros cuja aceitação foi confirmada em um segundo momento. Essa definição foi formalizada no Concílio de Trento, durante a Contrarreforma.
Além desses sete livros, a Bíblia católica também inclui trechos adicionais em alguns livros já existentes, como partes mais extensas de Ester e acréscimos ao livro de Daniel (incluindo relatos como o de “Bel e o Dragão”).
A Septuaginta foi amplamente utilizada pelos primeiros cristãos. Inclusive, autores do Novo Testamento frequentemente citavam passagens do Antigo Testamento conforme essa versão grega. Um exemplo conhecido está no Evangelho de Mateus 1:23, que menciona a profecia do nascimento do Messias e utiliza o termo grego parthenos (“virgem”).
Esse ponto gera debate até hoje, pois o texto hebraico original usa a palavra "almah", que significa “jovem mulher”, não sendo uma referência explícita à virgindade. Ainda assim, a tradução da Septuaginta influenciou diretamente a interpretação adotada no Novo Testamento.
Dessa forma, a Igreja Católica inclui esses livros em sua Bíblia principalmente porque eles já faziam parte da tradição da Septuaginta, amplamente utilizada pelos primeiros cristãos. Porém, de fato, nunca fizeram parte do cânon hebraico.
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